Tuesday, November 17, 2009

Silêncio

Não foi bonito. Não me entendo, não me desculpo. Aconteceu. Todos os dias aconteceu que não te telefonei. Fui e vim sem te apertar os ombros. De olhos fechados.

Temos alguma capacidade de rir da desgraça. Desta vez não teve graça.

Thursday, October 29, 2009

Vinte cinco quilos de porão

Adio até ao delírio empacotar. Exploro os limites do caos de forma ordeira e determinada sempre que viajo. Agora agigantam-se cinco anos para encaixotar e a certeza de não poder voltar atrás.

Ontem comecei a separar revistas. Umas para dar, outras para guardar e outras para reciclar. Há tempo.

Saturday, September 5, 2009

Excepto hoje

Não escrevo para ti. Há mesmo muito tempo que não escrevo para ti. Para que saibas.

Friday, September 4, 2009

Zup

Passou um ano e meio. Há muito que o coração voltou ao sítio. Para ti, confesso, não encontrei poiso. Às vezes tens a persistência devota das almas penadas. Apareces por nada. Não incomodas, não fascinas. É. Pouco me lembro da dor. Às vezes quase te agradeço a beneplácita soberba de me teres feito viver um grande amor. Eu, que não me sabia capaz de tal engenho.

Wednesday, May 21, 2008

Pum!













Epílogo
Dezanove dias depois de tu desapareceres, quatro depois de eu saber onde andavas, um vendedor de colares perguntou por ti. Mostrou os dentes brancos num largo sorriso e atirou:
- Então, o marido?
- Marido fugiu. Respondi sem afrouxar o passo.

O homem de chapéu branco gargalhou, mexido como um besouro:
-Ah, fugiu com outra mulher?
-Sim.

Com os colares de pedras do Mali pendurados nos braços, tapou o riso e virou costas em abanos de cabeça. Estava divertido, o sábio das contas.

Monday, May 19, 2008

"Grandes Esperanças", Charles Dickens

Retomei o prazer de pegar num livro, depois de 3 meses a fazer dele um pechisbeque decorativo do colo. Na semana passada, o livro deixou de ser manta e começou a fazer-se compreender. Compreender à primeira, que era o custoso.

Em rigor, é um erro dizer que só agora recomecei a ler. À custa das repetições, o único livro que principiei e acabei neste intermezzo de vida li-o como umas cinco vezes. Não me lembro do nome de nenhuma das duas personagens principais.

Às vezes esqueço-me do quanto me estremeceu o fim desta relação. Lembro-me nos pormenores.

Thursday, May 15, 2008

Frente à janela da sala onde trabalho poisam corvos. Estranho a raça, têm peito branco em jeito de camisola interior de alças, mas são pretos, corvos pretos. Das janelas de casa vejo abutres que aterram pesados no jardim.

Eu cá não sou de intrigas, mas crescem em mim fortes convicções que anda por aqui um certo mau agoiro.

Tuesday, May 13, 2008

A Grande Batalha Estava Para Vir

A última vez que estivemos juntos, levaste-me ao Prado e ao Thyssen. Sabia-los de cor. Eu queria ver Paolo Uccello. Tu deste-me a mão nos corredores e levaste-me lá. Estava frio na rua e nós coleccionávamos casacos à cintura e cachecóis ao pescoço. De caminho paraste em frente dos teus mestres italianos. Mostraste-me as cores, contaste-me as originalidades.

Quando saímos disse-te:
- Que bom ter visto Uccello e Bruegel. Olhar para eles foi talvez a melhor coisa que tirei do livro que acabei de ler.
- Qual livro? perguntáste-me, com a barba mergulhada no casaco azul escuro do teu irmão.
- O Pintor de Batalhas, do Reverte.
- Leste? Riste-te -Como é que conseguiste?

Naquele momento não me veio à memória uma única pessoa que não tivesse gostado do livro. Excepto tu. Excepto eu.

Apertei-te a mão enquanto subíamos uma rua íngreme. Estava quase noite, quase a chover, enchi o peito e pensei: “Este é, sem dúvida, o meu homem”.

Wednesday, April 30, 2008

Ovo de Pinguim

Numa altura, lembro-me, andava por aqui um rapaz com ares de pinguim que me rastejava os passos.

Hirto e farto de ventre, fazia conversa, desenvolvia o dom da omnipresença e da prestabilidade delirante. Tudo em nome de uma amizade súbita. Uma vez, entusiasmado, tentou o beijo. Coisa desajeitada. Pediu desculpa pela falta de tino. Pela amizade descontrolada. Tudo se passou sem dramas, a ordem foi reposta com promessas de não repetição. Mais ou menos amigos, mais ou menos como dantes.

Até a um dia domingo. Por mais um acaso vi-me a ir buscar um bolo de aniversário ao café da pequena cidade onde vivo. Era cedo, entrei com o cabelo molhado e uma ave não voadora ao lado que se debruçava sobre o meu pescoço a cada frase.

Veio-me um desconforto abafadiço. O café estava cheio e eu vi-me pelos olhos dos outros. Pior, vi-te pelos olhos cúmplices dos outros. E esse olhar eu não queria. Não. Não suportava que te vissem com olhos de homem pequeno, tu que eras maior.

Nunca mais atendi um telefonema do pinguim. Menos do que o tempo que demora um ovo a chocar tu também já não ligavas.