Wednesday, May 21, 2008

Pum!













Epílogo
Dezanove dias depois de tu desapareceres, quatro depois de eu saber onde andavas, um vendedor de colares perguntou por ti. Mostrou os dentes brancos num largo sorriso e atirou:
- Então, o marido?
- Marido fugiu. Respondi sem afrouxar o passo.

O homem de chapéu branco gargalhou, mexido como um besouro:
-Ah, fugiu com outra mulher?
-Sim.

Com os colares de pedras do Mali pendurados nos braços, tapou o riso e virou costas em abanos de cabeça. Estava divertido, o sábio das contas.

Monday, May 19, 2008

"Grandes Esperanças", Charles Dickens

Retomei o prazer de pegar num livro, depois de 3 meses a fazer dele um pechisbeque decorativo do colo. Na semana passada, o livro deixou de ser manta e começou a fazer-se compreender. Compreender à primeira, que era o custoso.

Em rigor, é um erro dizer que só agora recomecei a ler. À custa das repetições, o único livro que principiei e acabei neste intermezzo de vida li-o como umas cinco vezes. Não me lembro do nome de nenhuma das duas personagens principais.

Às vezes esqueço-me do quanto me estremeceu o fim desta relação. Lembro-me nos pormenores.

Thursday, May 15, 2008

Frente à janela da sala onde trabalho poisam corvos. Estranho a raça, têm peito branco em jeito de camisola interior de alças, mas são pretos, corvos pretos. Das janelas de casa vejo abutres que aterram pesados no jardim.

Eu cá não sou de intrigas, mas crescem em mim fortes convicções que anda por aqui um certo mau agoiro.

Tuesday, May 13, 2008

A Grande Batalha Estava Para Vir

A última vez que estivemos juntos, levaste-me ao Prado e ao Thyssen. Sabia-los de cor. Eu queria ver Paolo Uccello. Tu deste-me a mão nos corredores e levaste-me lá. Estava frio na rua e nós coleccionávamos casacos à cintura e cachecóis ao pescoço. De caminho paraste em frente dos teus mestres italianos. Mostraste-me as cores, contaste-me as originalidades.

Quando saímos disse-te:
- Que bom ter visto Uccello e Bruegel. Olhar para eles foi talvez a melhor coisa que tirei do livro que acabei de ler.
- Qual livro? perguntáste-me, com a barba mergulhada no casaco azul escuro do teu irmão.
- O Pintor de Batalhas, do Reverte.
- Leste? Riste-te -Como é que conseguiste?

Naquele momento não me veio à memória uma única pessoa que não tivesse gostado do livro. Excepto tu. Excepto eu.

Apertei-te a mão enquanto subíamos uma rua íngreme. Estava quase noite, quase a chover, enchi o peito e pensei: “Este é, sem dúvida, o meu homem”.

Wednesday, April 30, 2008

Ovo de Pinguim

Numa altura, lembro-me, andava por aqui um rapaz com ares de pinguim que me rastejava os passos.

Hirto e farto de ventre, fazia conversa, desenvolvia o dom da omnipresença e da prestabilidade delirante. Tudo em nome de uma amizade súbita. Uma vez, entusiasmado, tentou o beijo. Coisa desajeitada. Pediu desculpa pela falta de tino. Pela amizade descontrolada. Tudo se passou sem dramas, a ordem foi reposta com promessas de não repetição. Mais ou menos amigos, mais ou menos como dantes.

Até a um dia domingo. Por mais um acaso vi-me a ir buscar um bolo de aniversário ao café da pequena cidade onde vivo. Era cedo, entrei com o cabelo molhado e uma ave não voadora ao lado que se debruçava sobre o meu pescoço a cada frase.

Veio-me um desconforto abafadiço. O café estava cheio e eu vi-me pelos olhos dos outros. Pior, vi-te pelos olhos cúmplices dos outros. E esse olhar eu não queria. Não. Não suportava que te vissem com olhos de homem pequeno, tu que eras maior.

Nunca mais atendi um telefonema do pinguim. Menos do que o tempo que demora um ovo a chocar tu também já não ligavas.

Tuesday, April 29, 2008

Desvios

Curioso pensar nessa coisa da fidelidade. É coisa nova para mim. Sempre acreditei que era natural, vinha dentro dos envelopes dos grandes amores. Nunca tinha sido fiel. Em todas as relações desviei-me um pouquinho, numa altura. Sabia que o meu caminho não era aquele, nem o um nem o outro. Não problematizava o desvio. Atalhava-o. Faltava-me paciência para relações duplas. E estômago. Os meus desvios, tarde ou cedo, eram anunciados em diálogos de fim de noite ou de relação. Alguns custaram. Foram conversas duras como maçãs verdes. Magoava quem gostava e para isso não há desculpa que nos absolva. Outras nem tanto. Ser fiel para mim era uma coisa adiável, como o grande amor da vida.

Quando tu apareceste a questão também não se colocou. Sem saber era fiel, porque não poderia ser de outra forma. Porque não havia espaço dentro de mim para deixar entrar mais ninguém. Nem ouvido para conversa alheia.

E é precisamente na altura em que me conheço fiel que sinto a dor da traição como uma mão que nos arranca as vísceras. E a vontade de viver.

Wednesday, April 16, 2008

O Tempo

Só o tempo. Só o tempo trará dias mais leves. Às vezes já há dias quase assim. Há instantes em que eu até consigo sentir alguma lucidez para dizer "não era ele". Há. Há depois todos os outros dias...

Tuesday, April 15, 2008

Um Amor Maior

Nada como um desgosto de amor para te travar os dias. Urras de vazio, cospes o coração, sofres como um leão engaiolado. Nada se iguala. Nada intervala. Há dois meses descobri que o meu grande amor tinha, afinal, um amor maior. Outro.

Nada como um desgosto de amor para te pôr a escrever.