Wednesday, April 30, 2008

Ovo de Pinguim

Numa altura, lembro-me, andava por aqui um rapaz com ares de pinguim que me rastejava os passos.

Hirto e farto de ventre, fazia conversa, desenvolvia o dom da omnipresença e da prestabilidade delirante. Tudo em nome de uma amizade súbita. Uma vez, entusiasmado, tentou o beijo. Coisa desajeitada. Pediu desculpa pela falta de tino. Pela amizade descontrolada. Tudo se passou sem dramas, a ordem foi reposta com promessas de não repetição. Mais ou menos amigos, mais ou menos como dantes.

Até a um dia domingo. Por mais um acaso vi-me a ir buscar um bolo de aniversário ao café da pequena cidade onde vivo. Era cedo, entrei com o cabelo molhado e uma ave não voadora ao lado que se debruçava sobre o meu pescoço a cada frase.

Veio-me um desconforto abafadiço. O café estava cheio e eu vi-me pelos olhos dos outros. Pior, vi-te pelos olhos cúmplices dos outros. E esse olhar eu não queria. Não. Não suportava que te vissem com olhos de homem pequeno, tu que eras maior.

Nunca mais atendi um telefonema do pinguim. Menos do que o tempo que demora um ovo a chocar tu também já não ligavas.