Wednesday, February 24, 2010

Saltos Altos

Três da manhã de um dia difícil. Deixei amigos em casa e não virei à esquerda, como era hábito. Dei meia volta e segui a rua esburacada até ao cruzamento sem luz. Ali estava, ao fundo, a discoteca da moda, suja e decadente, com uma luz pardacenta a orientar a via láctea de mosquitos. Desci as escadas irregulares e estreitas, alheias a qualquer norma de segurança e entrei na nuvem de suor e fumo. Sozinha, como não fazia há muito.

Na pista, três raparigas magras como lápis agitavam no ar os bracinhos finos numa dança frenética. Vestiam licras e luxúria. Ao som da música senegalesa, as dancing queens entreolhavam risos e incendiavam os homens. Dei um passo em frente e segui-lhes os passos. Com sandálias rasas senti-me um cão desajeitado e de pata curta ao lado de gazelas às pintas. Não me pareceu mal, mas não consegui incendiar ninguém, nem a mim. Havia um problema. Com afinco na reflexão, descobri. O sapato. Uns saltos altos é que me davam jeito. Equilibram a altura e desequilibram a postura. Quando aterrar em Portugal, irei comprar saltos, está decidido. Fininhos como as pernas das raparigas de licra.