Wednesday, April 30, 2008

Ovo de Pinguim

Numa altura, lembro-me, andava por aqui um rapaz com ares de pinguim que me rastejava os passos.

Hirto e farto de ventre, fazia conversa, desenvolvia o dom da omnipresença e da prestabilidade delirante. Tudo em nome de uma amizade súbita. Uma vez, entusiasmado, tentou o beijo. Coisa desajeitada. Pediu desculpa pela falta de tino. Pela amizade descontrolada. Tudo se passou sem dramas, a ordem foi reposta com promessas de não repetição. Mais ou menos amigos, mais ou menos como dantes.

Até a um dia domingo. Por mais um acaso vi-me a ir buscar um bolo de aniversário ao café da pequena cidade onde vivo. Era cedo, entrei com o cabelo molhado e uma ave não voadora ao lado que se debruçava sobre o meu pescoço a cada frase.

Veio-me um desconforto abafadiço. O café estava cheio e eu vi-me pelos olhos dos outros. Pior, vi-te pelos olhos cúmplices dos outros. E esse olhar eu não queria. Não. Não suportava que te vissem com olhos de homem pequeno, tu que eras maior.

Nunca mais atendi um telefonema do pinguim. Menos do que o tempo que demora um ovo a chocar tu também já não ligavas.

Tuesday, April 29, 2008

Desvios

Curioso pensar nessa coisa da fidelidade. É coisa nova para mim. Sempre acreditei que era natural, vinha dentro dos envelopes dos grandes amores. Nunca tinha sido fiel. Em todas as relações desviei-me um pouquinho, numa altura. Sabia que o meu caminho não era aquele, nem o um nem o outro. Não problematizava o desvio. Atalhava-o. Faltava-me paciência para relações duplas. E estômago. Os meus desvios, tarde ou cedo, eram anunciados em diálogos de fim de noite ou de relação. Alguns custaram. Foram conversas duras como maçãs verdes. Magoava quem gostava e para isso não há desculpa que nos absolva. Outras nem tanto. Ser fiel para mim era uma coisa adiável, como o grande amor da vida.

Quando tu apareceste a questão também não se colocou. Sem saber era fiel, porque não poderia ser de outra forma. Porque não havia espaço dentro de mim para deixar entrar mais ninguém. Nem ouvido para conversa alheia.

E é precisamente na altura em que me conheço fiel que sinto a dor da traição como uma mão que nos arranca as vísceras. E a vontade de viver.

Wednesday, April 16, 2008

O Tempo

Só o tempo. Só o tempo trará dias mais leves. Às vezes já há dias quase assim. Há instantes em que eu até consigo sentir alguma lucidez para dizer "não era ele". Há. Há depois todos os outros dias...

Tuesday, April 15, 2008

Um Amor Maior

Nada como um desgosto de amor para te travar os dias. Urras de vazio, cospes o coração, sofres como um leão engaiolado. Nada se iguala. Nada intervala. Há dois meses descobri que o meu grande amor tinha, afinal, um amor maior. Outro.

Nada como um desgosto de amor para te pôr a escrever.