Curioso pensar nessa coisa da fidelidade. É coisa nova para mim. Sempre acreditei que era natural, vinha dentro dos envelopes dos grandes amores. Nunca tinha sido fiel. Em todas as relações desviei-me um pouquinho, numa altura. Sabia que o meu caminho não era aquele, nem o um nem o outro. Não problematizava o desvio. Atalhava-o. Faltava-me paciência para relações duplas. E estômago. Os meus desvios, tarde ou cedo, eram anunciados em diálogos de fim de noite ou de relação. Alguns custaram. Foram conversas duras como maçãs verdes. Magoava quem gostava e para isso não há desculpa que nos absolva. Outras nem tanto. Ser fiel para mim era uma coisa adiável, como o grande amor da vida.
Quando tu apareceste a questão também não se colocou. Sem saber era fiel, porque não poderia ser de outra forma. Porque não havia espaço dentro de mim para deixar entrar mais ninguém. Nem ouvido para conversa alheia.
E é precisamente na altura em que me conheço fiel que sinto a dor da traição como uma mão que nos arranca as vísceras. E a vontade de viver.